A cena parece contraditória.
Um pirarucu sobe à superfície de um lago amazônico, abre a boca, capta ar e volta para baixo.
Uma piramboia consegue atravessar períodos difíceis utilizando pulmões verdadeiros.
Um pequeno tamoatá sobe rapidamente, engole uma porção de ar e utiliza parte do intestino para retirar oxigênio.
Já o poraquê, famoso pelas descargas elétricas, possui outra solução: uma região muito vascularizada da boca participa intensamente da respiração.
Todos são peixes.
Todos possuem brânquias.
Mesmo assim, o oxigênio dissolvido na água não é necessariamente sua única fonte de oxigênio.
É aí que a expressão “peixes que respiram fora da água” precisa de uma pequena correção.
Muitas dessas espécies não saem fisicamente da água para respirar. Permanecem submersas e apenas chegam à superfície para captar ar atmosférico. Outras conseguem realmente suportar períodos de exposição ao ar ou permanecer em ambientes enlameados quando a água desaparece.
O fenômeno mais amplo é chamado de respiração aérea.
E a natureza encontrou tantas maneiras de realizá-lo que não existe um único “órgão especial dos peixes que respiram ar”.
Há peixes utilizando pulmões, bexigas natatórias modificadas, intestino, boca, regiões das brânquias e até a pele.
Por que a maioria dos peixes não consegue simplesmente respirar o ar?
À primeira vista, isso parece estranho.
Se o ar ao nosso redor contém oxigênio, por que um peixe retirado da água pode sufocar?
O problema não é simplesmente a ausência de oxigênio.
É a maneira como a estrutura respiratória funciona.
As brânquias apresentam filamentos e pequenas estruturas chamadas lamelas, que criam uma enorme área para troca de gases. Dentro da água, essas estruturas delicadas permanecem separadas e recebem continuamente água passando sobre elas.
Quando muitas brânquias típicas são expostas ao ar, as lamelas podem perder o suporte da água, aproximar-se umas das outras e reduzir drasticamente a área funcional disponível para as trocas gasosas.
Além disso, estruturas respiratórias precisam permanecer adequadamente úmidas para que a difusão dos gases ocorra.
Portanto, existir muito oxigênio no ar não adianta se o animal não possui uma superfície capaz de captá-lo de maneira eficiente naquele meio.
Os peixes que respiram ar resolveram justamente esse problema.
Respirar ar não significa deixar de possuir brânquias
Esse é um detalhe fascinante.
Mesmo espécies altamente dependentes da respiração aérea continuam possuindo brânquias.
O que muda é a divisão do trabalho.
Em algumas espécies, as brânquias ainda participam muito da obtenção de oxigênio da água.
Em outras, sua importância para captar oxigênio diminuiu e um órgão respiratório aéreo assumiu grande parte dessa função.
As brânquias, porém, podem continuar importantes para eliminar dióxido de carbono, controlar sais e participar de outros processos fisiológicos.
O peixe não simplesmente “troca brânquias por pulmões”.
A evolução reorganiza funções.
Alguns peixes respiram ar apenas quando precisam
Aqui aparece uma distinção útil.
Existem respiradores aéreos facultativos.
Eles conseguem utilizar as brânquias em condições adequadas, mas recorrem mais à respiração aérea quando o oxigênio dissolvido diminui ou diante de determinadas exigências ambientais.
Outros são respiradores aéreos obrigatórios.
Neles, acessar a superfície não é apenas uma solução de emergência.
Faz parte normal e indispensável da respiração.
Um peixe desse segundo grupo pode estar cercado por água e ainda assim ter sérios problemas se for impedido de alcançar o ar.
Parece contraditório, mas faz sentido quando entendemos que sua fisiologia já depende daquele órgão respiratório aéreo.

Pirarucu: quando a bexiga natatória passa a trabalhar como órgão respiratório
O pirarucu (Arapaima gigas) oferece provavelmente o exemplo brasileiro mais conhecido.
Quem observa um pirarucu na natureza percebe que ele retorna periodicamente à superfície.
Não se trata apenas de curiosidade ou busca por alimento.
Ele precisa respirar ar.
O pirarucu é classificado como respirador aéreo obrigatório.
O órgão central dessa adaptação é uma enorme bexiga natatória modificada e intensamente vascularizada.
Em muitos peixes, a bexiga natatória está fortemente associada ao controle de flutuabilidade.
No pirarucu, ela também se tornou uma importante superfície para troca de gases.
O animal sobe, capta ar atmosférico e o leva até essa estrutura interna, onde o oxigênio pode passar para o sangue.
O pirarucu muda sua maneira de respirar enquanto cresce
Essa história fica ainda mais interessante quando olhamos para o desenvolvimento.
Pirarucus muito jovens apresentam brânquias mais adequadas à respiração aquática.
À medida que crescem, ocorre uma transformação.
A superfície respiratória das brânquias é reduzida enquanto o órgão de respiração aérea se desenvolve e ganha importância.
Mesmo juvenis pequenos já começam a captar uma parcela considerável de seu oxigênio do ar.
Nos indivíduos maiores, a dependência da respiração aérea é ainda mais pronunciada.
Portanto, o grande pirarucu que vemos subindo à superfície não é simplesmente um peixe comum que aprendeu a “dar uma respirada”.
Seu sistema respiratório foi profundamente reorganizado para utilizar o ar atmosférico.
Isso significa que as brânquias do pirarucu ficaram inúteis?
Não.
Esse é justamente um ótimo exemplo da divisão de funções.
Embora grande parte do oxigênio venha do ar, as brânquias continuam participando de outros processos, inclusive da eliminação de dióxido de carbono e do equilíbrio de íons.
Estudos mais recentes mostram inclusive que, quando as condições da água dificultam a eliminação de dióxido de carbono pelas brânquias, o órgão de respiração aérea consegue assumir uma parcela maior dessa função.
A fisiologia não funciona como uma chave com apenas duas posições.
Água e ar podem continuar participando de maneiras diferentes.
Por que respirar ar é tão útil na Amazônia?
Muitos ambientes amazônicos apresentam períodos ou áreas com pouco oxigênio dissolvido.
Isso pode acontecer em águas quentes e tranquilas, em locais com grande quantidade de matéria orgânica em decomposição ou em ambientes sazonalmente isolados.
Nessas condições, depender exclusivamente do oxigênio dissolvido pode se tornar um problema.
O ar atmosférico oferece outra fonte.
Para uma espécie capaz de utilizá-lo, subir à superfície cria acesso a um recurso que continua disponível mesmo quando a água abaixo está pobre em oxigênio.
O pirarucu transformou essa oportunidade numa parte obrigatória de sua vida.
Piramboia: um peixe brasileiro com pulmões de verdade
Se a bexiga natatória do pirarucu já parece surpreendente, a piramboia (Lepidosiren paradoxa) leva a história para outro caminho.
Ela pertence ao grupo dos peixes pulmonados.
E, neste caso, podemos utilizar literalmente a palavra pulmões.
A piramboia possui dois pulmões bem desenvolvidos e é uma respiradora aérea obrigatória.
As brânquias dos adultos são reduzidas para a obtenção de oxigênio, enquanto a respiração pulmonar assume enorme importância.
Quando precisa respirar, o peixe chega à superfície e utiliza movimentos da boca para renovar o ar dentro dos pulmões.
Em termos evolutivos, os peixes pulmonados são particularmente fascinantes porque pertencem a uma linhagem de peixes de nadadeiras lobadas relacionada à história evolutiva distante dos vertebrados terrestres.
Mas a piramboia não é simplesmente um “fóssil vivo” esperando para virar anfíbio.
É um animal moderno, especializado em seu próprio modo de vida.
A piramboia consegue sobreviver quando a água desaparece?
Ela consegue enfrentar períodos de seca de uma maneira extraordinária.
Quando determinados ambientes ficam severamente reduzidos, a piramboia pode permanecer em uma toca no substrato e entrar num estado de estivação, diminuindo sua atividade e metabolismo.
Durante esse período, continua dependendo da respiração aérea.
Ao contrário de alguns peixes pulmonados africanos, que produzem um casulo muito evidente durante a estivação, a piramboia sul-americana permanece numa toca mais simples.
Isso permite atravessar condições que seriam impossíveis para muitos peixes exclusivamente aquáticos.
É uma das situações em que a expressão “peixe respirando fora da água” chega muito mais perto do sentido literal.
Poraquê: o órgão respiratório está na boca
O poraquê já apareceu no artigo sobre os peixes mais incríveis da Amazônia por sua capacidade de produzir eletricidade.
Mas seu sistema respiratório é quase tão surpreendente quanto suas descargas.
Os poraquês do gênero Electrophorus são respiradores aéreos obrigatórios.
Em vez de pulmões ou de uma bexiga natatória funcionando principalmente como órgão respiratório, eles possuem uma extensa superfície altamente vascularizada dentro da cavidade bucal e da região associada às brânquias.
O peixe chega à superfície, abre a boca, capta ar e realiza as trocas gasosas nessa região.
Em estudos clássicos, aproximadamente quatro quintos do oxigênio utilizado pelo animal vieram do ar.
Isso explica por que um poraquê precisa voltar repetidamente à superfície mesmo permanecendo completamente cercado por água.
A boca do poraquê realiza um trabalho inesperado
Para nós, a boca está associada primeiro à alimentação.
No poraquê, ela participa também intensamente da respiração.
A superfície interna possui estruturas vascularizadas que aumentam a área em contato com o ar captado.
O sangue circulando próximo dessa superfície consegue receber oxigênio.
Depois, o peixe elimina o ar utilizado e realiza uma nova respiração.
A solução é completamente diferente daquela da piramboia.
Um peixe utiliza pulmões.
Outro aproveita uma cavidade da boca.
Ambos chegam ao mesmo resultado geral: obter oxigênio da atmosfera.
O poraquê ainda troca gases com a água
Mesmo sendo um respirador aéreo obrigatório, ele não rompeu completamente a relação respiratória com o ambiente aquático.
Parte do oxigênio ainda pode ser obtida na água, e uma parcela importante do dióxido de carbono produzido pelo metabolismo é eliminada por superfícies em contato com ela.
Novamente encontramos a respiração bimodal.
O ar resolve uma parte importante do problema.
A água continua participando de outra.
Tamoatá: o peixe que engole ar e respira com o intestino
Talvez nenhum exemplo mostre tão bem a criatividade evolutiva quanto o tamoatá ou tamboatá (Hoplosternum littorale).
Quando o oxigênio da água é insuficiente — e até em outras condições — o peixe pode subir à superfície e engolir ar.
A partir daí acontece algo muito diferente do que ocorre conosco.
O ar segue pelo trato digestório e chega a uma região do intestino especializada para realizar trocas gasosas.
Essa área possui vascularização adequada para retirar oxigênio do ar engolido.
Depois que o ar percorre o sistema, ele é eliminado pelo ânus.
Sim: existe literalmente um peixe brasileiro capaz de respirar utilizando parte do intestino.
Como funciona a respiração do tamoatá?
O movimento ocorre numa sequência bastante rápida.
O peixe sobe em direção à superfície.
A boca emerge e capta ar.
Em seguida, ele volta para baixo enquanto engole essa porção de ar.
No intestino, parte do oxigênio é transferida para o sangue.
O ar anteriormente utilizado é então eliminado pela extremidade do trato digestório.
Esse comportamento pode parecer estranho para nós, mas resolve um problema bastante prático: permite ao animal complementar a respiração em ambientes nos quais o oxigênio dissolvido está reduzido.
Respirar pelo intestino não significa que qualquer peixe consiga fazer isso
O sistema digestório comum não se transforma automaticamente num órgão respiratório apenas porque alguém engoliu ar.
Para ocorrer uma troca eficiente de gases, a estrutura precisa apresentar características adequadas, incluindo uma superfície relativamente fina e boa irrigação sanguínea.
É uma especialização anatômica.
Da mesma maneira que o pulmão da piramboia e a boca do poraquê possuem características próprias, o intestino do tamoatá foi integrado ao sistema respiratório ao longo da evolução.

Jeju: uma bexiga natatória que entra em ação quando falta oxigênio
O jeju (Hoplerythrinus unitaeniatus) oferece outra solução.
Ele possui uma região modificada e muito vascularizada da bexiga natatória que consegue participar da respiração aérea.
Mas existe uma diferença importante em relação ao pirarucu.
O jeju é considerado um respirador aéreo facultativo.
Isso significa que a utilização do ar pode aumentar quando as condições da água ficam desfavoráveis, especialmente quando a disponibilidade de oxigênio cai.
Experimentos mostram que, à medida que a água se torna mais pobre em oxigênio, o peixe aumenta as visitas à superfície e passa mais tempo envolvido na respiração aérea.
A bexiga natatória deixa então de ser apenas uma estrutura associada à flutuação.
Torna-se uma fonte suplementar de oxigênio.
Jeju e traíra mostram que parentes próximos podem resolver o mesmo problema de maneiras diferentes
Esse é um detalhe especialmente interessante.
Jeju e traíra pertencem a grupos bastante próximos e ambos possuem bexiga natatória dividida em câmaras.
Mas elas não funcionam da mesma maneira.
No jeju, parte da bexiga é fortemente vascularizada e participa da respiração aérea.
Na traíra, a bexiga funciona predominantemente como órgão de flutuação e não possui a mesma função respiratória aérea.
A traíra pode aproximar-se da superfície em condições muito pobres em oxigênio e aproveitar água mais oxigenada naquela camada superficial.
Mas isso não é igual a engolir ar e utilizá-lo num órgão respiratório.
Essa comparação mostra como duas espécies aparentemente semelhantes podem seguir caminhos fisiológicos diferentes.
Respirar perto da superfície e respirar ar não são a mesma coisa
Esse é um erro fácil de cometer quando observamos peixes.
Em águas pobres em oxigênio, muitos animais sobem para uma camada muito próxima da superfície.
Ali, a troca com a atmosfera pode manter a água superficial mais oxigenada.
O peixe abre e fecha a boca e movimenta as brânquias justamente nessa região.
Nesse caso ele continua retirando oxigênio dissolvido na água.
O comportamento é conhecido como respiração aquática superficial.
No verdadeiro respirador aéreo, o animal capta o ar atmosférico e realiza trocas gasosas numa estrutura adaptada para isso.
Visualmente, as duas situações podem parecer semelhantes.
Fisiologicamente, são bem diferentes.
Muçum: quando o corpo inteiro ajuda a enfrentar a falta de água
O muçum (Synbranchus marmoratus) parece uma enguia, embora não pertença ao grupo das enguias verdadeiras.
Seu corpo alongado combina com uma vida associada a ambientes rasos, canais, brejos e regiões capazes de apresentar fortes mudanças sazonais.
A espécie é outro exemplo de respiração aérea facultativa.
Só que seu sistema é diferente dos anteriores.
Regiões das brânquias, da cavidade bucofaríngea e a própria pele podem participar das trocas gasosas.
Essa combinação permite ao muçum suportar condições que eliminariam rapidamente muitos peixes exclusivamente aquáticos.
O muçum consegue ficar enterrado na lama
Durante períodos desfavoráveis, o muçum pode permanecer em túneis dentro de substrato úmido e reduzir bastante sua atividade.
Estudos experimentais mostram que consegue sobreviver por longos períodos em condições de semi-estivação, realizando ajustes metabólicos importantes.
A umidade continua sendo fundamental.
Não estamos falando de um peixe que pode ser colocado numa calçada seca e seguir normalmente com sua vida.
A sobrevivência depende de condições que permitam às superfícies respiratórias continuar funcionando e ao animal evitar perda excessiva de água.
Essa nuance separa uma adaptação real de uma história exagerada de “peixe que vive na terra”.
Então existem peixes que realmente ficam fora da água?
Existem.
Mas precisamos distinguir respirar ar de ser anfíbio.
O pirarucu respira ar, mas é essencialmente um animal aquático. Ele sobe à superfície e retorna à água.
O poraquê faz algo semelhante.
O tamoatá também capta ar enquanto continua vivendo dentro do ambiente aquático.
Já espécies como o muçum toleram períodos em substrato úmido fora de uma coluna normal de água.
A piramboia consegue estivação dentro de tocas quando o ambiente seca.
Em outras partes do mundo, há ainda peixes capazes de realizar excursões terrestres mais evidentes.
Portanto, “respirador aéreo” e “peixe capaz de viver fora da água durante algum tempo” são conceitos relacionados, mas não idênticos.
Um peixe que respira ar pode se afogar?
Pode parecer impossível, mas em determinadas espécies a resposta prática é sim.
Um respirador aéreo obrigatório precisa acessar a atmosfera.
Se for impedido de chegar à superfície durante tempo suficiente, suas brânquias podem não conseguir fornecer todo o oxigênio necessário.
O animal pode então morrer por falta de oxigênio mesmo estando dentro da água.
Isso acontece porque a fisiologia já depende de uma fonte aérea.
O ambiente aquático continua sendo seu habitat, mas a superfície faz parte desse habitat respiratório.
Para um pirarucu, um poraquê ou uma piramboia, impedir completamente o acesso ao ar é muito diferente de simplesmente manter um peixe comum num aquário bem oxigenado.
A superfície não é apenas o teto do mundo aquático
Normalmente imaginamos o habitat de um peixe olhando horizontalmente.
Há fundo, margem, vegetação, correnteza e áreas abertas.
Para espécies que respiram ar, precisamos incluir outra dimensão: o acesso vertical à superfície.
Um animal pode possuir água suficiente abaixo dele e ainda assim enfrentar um problema se algo o impedir de subir.
Essa relação ajuda a entender por que comportamento, anatomia e ambiente precisam ser considerados juntos.
Uma adaptação respiratória cria também uma necessidade ecológica.
Por que a respiração aérea apareceu tantas vezes entre os peixes?
Uma das coisas mais fascinantes é que essa capacidade não surgiu uma única vez e depois foi simplesmente herdada por todos os respiradores aéreos.
Ela evoluiu repetidamente em diferentes linhagens.
Isso explica a variedade de soluções.
Pulmões.
Bexiga natatória.
Intestino.
Boca.
Regiões faríngeas.
Pele.
Diferentes grupos encontraram maneiras diferentes de resolver um desafio parecido.
Ambientes tropicais de água doce favorecem especialmente esse tipo de adaptação porque podem apresentar condições de hipóxia, isto é, baixa disponibilidade de oxigênio dissolvido.
Quando respirar água se torna difícil, uma fonte enorme de oxigênio permanece logo acima da superfície.
A evolução encontrou várias maneiras de alcançá-la.
O ar oferece vantagens, mas também cria novos riscos
Subir para respirar não é uma ação gratuita.
Um peixe precisa abandonar momentaneamente a proteção do fundo ou da vegetação.
Na superfície, pode ficar mais visível para predadores.
O movimento também gasta energia.
Em algumas situações, o intervalo entre respirações passa a fazer parte do equilíbrio entre obter oxigênio e evitar exposição.
Isso ajuda a explicar por que espécies facultativas podem aumentar ou diminuir a respiração aérea conforme as condições da água.
O ar é uma oportunidade.
Usá-lo também tem custo.
Temperatura também influencia a história
Águas mais quentes conseguem reter menos oxigênio dissolvido do que águas mais frias, enquanto o metabolismo de animais ectotérmicos pode aumentar com a temperatura dentro de determinados limites.
Isso pode criar uma combinação difícil: menos oxigênio disponível na água e maior demanda metabólica.
Ambientes tropicais ainda podem apresentar ciclos diários e sazonais importantes na concentração de oxigênio.
Para um peixe capaz de chegar à superfície e utilizar o ar, existe uma rota alternativa.
Essa flexibilidade ajuda a explicar por que tantos respiradores aéreos são encontrados em regiões tropicais.
Se respirar ar é tão vantajoso, por que todos os peixes não fazem isso?
Porque evolução não trabalha com uma lista de melhorias universais.
Uma estrutura precisa surgir dentro da história anatômica de determinada linhagem e oferecer vantagens suficientes para permanecer.
Também existem custos.
Manter um órgão respiratório especializado exige recursos.
Subir à superfície pode expor o peixe a predadores.
Alterações que reduzem a superfície das brânquias podem aumentar a dependência do ar.
E muitas espécies vivem em águas suficientemente oxigenadas para que suas brânquias resolvam o problema de maneira excelente.
Para elas, transformar intestino, boca ou bexiga natatória em órgão respiratório talvez não oferecesse uma vantagem relevante.
A bexiga natatória e o pulmão têm uma história evolutiva muito interessante
Em diferentes grupos de peixes, estruturas internas cheias de gás assumiram funções de flutuação ou respiração.
A relação evolutiva entre pulmões e bexigas natatórias faz parte de uma história profunda dos vertebrados.
Mas é perigoso transformar isso numa sequência simplista do tipo:
bexiga natatória virou pulmão e o peixe saiu da água.
A história evolutiva real é muito mais ramificada.
Peixes pulmonados atuais possuem pulmões verdadeiros.
Outros peixes desenvolveram independentemente bexigas natatórias especializadas para trocas gasosas.
Ainda outros utilizaram intestino ou boca.
O resultado final parece semelhante porque todos respiram ar.
O caminho evolutivo não foi o mesmo.
Respirar ar também não significa estar “evoluindo para viver na terra”
Essa expressão aparece bastante quando se fala de piramboia ou muçum.
Mas espécies modernas não estão numa escada evolutiva caminhando inevitavelmente em direção à vida terrestre.
A piramboia atual é resultado de sua própria longa história evolutiva.
O pirarucu também.
O tamoatá não está tentando transformar seu intestino num pulmão.
Cada espécie possui adaptações que funcionam em seu ambiente atual.
Estudar esses animais pode ajudar cientistas a compreender etapas e possibilidades importantes na evolução da respiração dos vertebrados.
Isso é diferente de dizer que estamos observando um peixe “virando animal terrestre”.
Se vir um peixe respirando na superfície, não conclua imediatamente que falta oxigênio
Em muitas espécies de aquário, subir repetidamente à superfície pode realmente indicar um problema na água.
Mas essa interpretação não pode ser aplicada automaticamente a todos os peixes.
Para um pirarucu ou poraquê, respirar ar é normal.
Para um jeju, a frequência pode aumentar quando o oxigênio cai.
Para um peixe exclusivamente aquático que normalmente não permanece na superfície, o comportamento pode ter outro significado.
O que parece igual aos nossos olhos pode representar fisiologias muito diferentes.
É por isso que identificar a espécie vem antes de interpretar o comportamento.
Esses peixes mostram que “respirar” não pertence a um único órgão
Talvez essa seja a grande descoberta por trás de todo o tema.
Estamos acostumados a associar um animal a um órgão respiratório.
Peixe tem brânquias.
Mamífero tem pulmões.
A realidade biológica é bem mais criativa.
Entre os peixes brasileiros podemos encontrar:
- piramboia, utilizando pulmões;
- pirarucu e jeju, utilizando estruturas modificadas da bexiga natatória;
- poraquê, utilizando principalmente superfícies vascularizadas da cavidade bucal;
- tamoatá, utilizando parte do intestino;
- muçum, utilizando regiões branquiais e bucofaríngeas e também a pele em determinadas condições.
O objetivo final é o mesmo: permitir que o oxigênio atravesse uma superfície e alcance o sangue.
A anatomia utilizada para chegar lá varia enormemente.

A água explica por que essas adaptações existem
Quando vemos um peixe engolindo ar, respirando por uma bexiga natatória ou utilizando o intestino, a característica parece extravagante.
Mas volte para o ambiente.
Imagine uma lagoa rasa aquecida pelo sol.
A vegetação e a matéria orgânica consomem oxigênio.
O nível da água diminui durante a seca.
Peixes ficam concentrados em áreas menores.
O oxigênio dissolvido pode cair justamente quando a sobrevivência se torna mais difícil.
Agora existe uma enorme reserva de oxigênio a poucos centímetros de distância: a atmosfera.
A partir desse ponto, utilizar o ar já não parece tão estranho.
Parece uma solução.
O extraordinário não é o peixe sair da água, mas descobrir quantas maneiras existem de continuar respirando
Um pirarucu quebra a superfície e leva ar para uma bexiga natatória transformada.
Uma piramboia enche pulmões.
Um poraquê utiliza a boca.
Um tamoatá engole ar e aproveita o intestino.
Um jeju transforma parte da bexiga natatória numa ajuda quando a água fica difícil.
Um muçum consegue atravessar condições extremas utilizando um conjunto diferente de superfícies respiratórias.
Nenhuma dessas espécies precisou seguir o mesmo projeto.
A evolução chegou várias vezes ao ar atmosférico por caminhos independentes.
E talvez essa seja a parte mais fascinante dos chamados “peixes que respiram fora da água”.
O estranho não é descobrir que alguns peixes conseguem respirar ar.
É perceber que eles inventaram biologicamente tantas maneiras diferentes de fazer isso.
Guia de Peixes Tropicais do Brasil
Se você gosta de descobrir como os peixes brasileiros vivem e quais adaptações tornam cada espécie diferente, o Guia de Peixes Tropicais do Brasil amplia essa viagem por dezenas de espécies, com informações sobre características, ambientes, alimentação, reprodução, comportamento e curiosidades.
O pirarucu, por exemplo, aparece no material justamente com destaque para sua adaptação à respiração aérea em ambientes amazônicos de baixa oxigenação.
CONHECER O GUIA DE PEIXES TROPICAIS DO BRASIL
Perguntas frequentes
Existem peixes que respiram fora da água?
Sim. Existem peixes capazes de utilizar oxigênio atmosférico, embora muitos permaneçam dentro da água enquanto sobem à superfície para respirar. Algumas espécies também conseguem suportar períodos fora de uma coluna normal de água ou em substratos úmidos.
Como um peixe consegue respirar ar?
Depende da espécie. Diferentes peixes utilizam pulmões, bexiga natatória modificada, intestino, cavidade bucal, estruturas associadas às brânquias ou pele para realizar trocas gasosas com o ar.
O pirarucu respira ar?
Sim. O pirarucu é um respirador aéreo obrigatório e utiliza uma bexiga natatória altamente vascularizada como importante órgão respiratório.
O pirarucu pode viver fora da água?
Respirar ar não significa que o pirarucu seja adaptado à vida terrestre. Ele é um peixe aquático que precisa chegar periodicamente à superfície para respirar.
A piramboia possui pulmões?
Sim. Lepidosiren paradoxa é um peixe pulmonado e possui dois pulmões bem desenvolvidos. A espécie depende da respiração aérea e consegue passar períodos desfavoráveis em estivação.
Poraquê respira pelas brânquias?
Ele possui brânquias, mas obtém grande parte de seu oxigênio do ar através de uma superfície respiratória fortemente vascularizada na região da boca. Por isso precisa subir regularmente à superfície.
Existe peixe que respira pelo intestino?
Sim. O tamoatá ou tamboatá (Hoplosternum littorale) engole ar e utiliza uma região especializada do intestino para retirar oxigênio.
Peixe pode respirar pela pele?
Em algumas espécies, a pele participa das trocas gasosas, especialmente quando possui características adequadas e permanece úmida. O muçum está entre os peixes que utilizam diferentes superfícies corporais na respiração.
Qual é a diferença entre respiração aérea obrigatória e facultativa?
Respiradores obrigatórios dependem do acesso ao ar atmosférico para atender às necessidades respiratórias. Respiradores facultativos conseguem depender mais da água em condições favoráveis e aumentam o uso do ar em determinadas circunstâncias.
Um peixe que respira ar pode morrer se não alcançar a superfície?
Sim. Nas espécies obrigatoriamente dependentes da respiração aérea, impedir o acesso à superfície pode levar à falta de oxigênio mesmo que o animal permaneça dentro da água.
Todo peixe que vai à superfície está respirando ar?
Não. Muitos peixes utilizam a água mais oxigenada junto à superfície e continuam respirando pelas brânquias. Isso é diferente de captar ar atmosférico para um órgão respiratório especializado.
A traíra respira ar?
A traíra pode aproximar-se da superfície em situações de baixa oxigenação, mas não possui o mesmo sistema de respiração aérea do jeju, seu parente próximo. O jeju utiliza uma região vascularizada da bexiga natatória para captar oxigênio do ar.
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